COMO NOS DIAS DE NOÉ

“Sendo Jesus interrogado pelos fariseus sobre quando viria o Reino de Deus, respondeu-lhes: o Reino de Deus não vem com aparência exterior; nem dirão: hei-lo aqui! Ou hei-lo ali! Pois o reino de Deus está dentro de vós” (Lucas 17:20-21). É sempre importante, para quem tem interesse pela verdade, observar com mais profundidade as colocações feitas por Jesus Cristo em seus ensinamentos, as quais foram transmitidas por testemunhas oculares e narradas pelos conhecidos evangelistas Mateus, Marcos, Lucas e João. Ao analisar, por exemplo, uma delas, a que acima transcrevemos, notamos que são palavras que vão além, muito além do que normalmente admitimos significar.

Ao dizer que o Reino de Deus não poderia ser detectado pela aparência exterior, Jesus admitiu a existência de um outro Reino, daquele que tem aparência, do que pode ser visto com os olhos naturais, e cuja realidade é outra, completamente diferente, visto que apenas disfarça o seu verdadeiro objetivo. O Reino de Deus, ao contrário, busca o esclarecimento e o conhecimento da verdade, e não tem aparência exterior. Jesus chamou muito a nossa atenção para o fato de um cego ser guiado por outro. Segundo Ele, ambos cairiam no barranco. Assim, se o Reino de Deus não pode ser percebido visualmente, torna-se em vão procurá-lo aqui ou ali, ainda mais quando não se sabe o que ele realmente significa:“...ora, se um cego guiar outro cego, ambos cairão no barranco”(Mateus 15:14).

Certo é que, agora, quando parece existir mais de mil denominações religiosas dizendo-se cristãs, e outras tantas não religiosas, mas que também cooperam com o poder das trevas (Colossenses 1:13), mais do que nunca se faz necessária a humildade para admitir o estado de coisas em que vivemos e pedir a Deus que nos permita ver em meio a tanta confusão. Para isto, um pouco de modéstia não nos fará mal, pois aquele que se julga enxergar muito é mais provável que seja cego. O próprio Jesus censurou os fariseus que foram tomados de espanto quando o Senhor deixou transparecer que, no entendimento, eles eram cegos. A doutrina dos fariseus, que por sinal ainda existe, tem esta característica, a de não necessitar de quem lhe abra os olhos: “Disse-lhes Jesus: se fôsseis cegos, não teríeis pecado; mas como agora dizeis: Vemos, por isso, o vosso pecado permanece.” (João 9:41) .

Este ponto de vista Dele, de que o Reino de Deus não vem com aparência exterior, ajuda a esclarecer a passagem do Livro de Gênesis, onde o homem, enganado pela serpente, perdeu a convivência com Deus e, como tudo indica, inicia um outro tipo de vida, tendo que decidir, por si só, sobre cada situação que diante dele se apresentasse, como a seguir se observa: “Porque Deus sabe que no dia que comerdes desse fruto, vossos olhos se abrirão, e sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal. Então, vendo a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para se dar entendimento, tomou do seu fruto, comeu e deu ao seu marido, e ele também comeu. Então foram abertos os olhos de ambos e conheceram que estavam nus; pelo que, coseram folhas de figueira e fizeram para si aventais. E, ouvindo a voz do Senhor Deus... esconderam-se o homem e a mulher da presença do Senhor Deus...” (Gênesis 3:5-8).

É fácil observar que o engano causado pela serpente fez com que eles tivessem seus olhos abertos para o natural quando perceberam seus corpos nus e sentiram, como resultado deste acontecimento, a necessidade de uma reação imediata: a de se vestirem para não se apresentarem nus, pois consideraram aquilo um mal.

Todavia, pela mesma razão, perderam a visão do mundo espiritual, estavam cegos, não mais viram a Deus, apenas ouviram a sua voz. Resultou daí, mais uma vez, a necessidade de tomarem alguma atitude: optaram por se esconder.Com este procedimento, o homem inaugurou um outro mundo, o mundo dos espiritualmente cegos, onde Deus, agora invisível, foi ficando cada vez mais distante, até chegar ao que se tem nos dias de hoje, onde o homem, de um modo geral, sequer é capaz de ouvir a voz de Deus.

Ainda, ao dizer que o seu Reino não era o deste mundo (João 18:36), não estaria o Senhor Jesus se referindo àquele Reino visível, inaugurado pelo homem? Assim, com a afirmação de Cristo, concluímos que o domínio da Terra realmente não pertence a Deus, mas sim ao próprio homem, sob a eficácia de Satanás. Daí a preocupação de Deus quanto ao homem ter vida eterna sem passar pela espada (Palavra de Deus): “Então, disse o Senhor Deus: eis que o homem se tem tornado como um de nós, conhecendo o bem e o mal. Ora, não suceda que estenda a sua mão, e tome também da árvore da vida, e coma e viva eternamente. O Senhor Deus, pois, o lançou fora do Jardim do Éden para lavrar a Terra de que fora tomado. E havendo lançado fora o homem pôs ao oriente do Jardim do Éden os querubins, e uma espada flamejante que se volvia por todos os lados, para guardar o caminho da árvore da vida” (Gênesis 3:22-24).

Aquilo que parece ser apenas uma história infantil, nos traz uma mensagem extremamente importante: a de que o homem anda em seus próprios caminhos e nem sempre faz a vontade de Deus. A reação imediata do homem foi coser folhas de figueira e fazer seus aventais. No entanto, se tivessem consultado a Deus, teriam feito túnicas e não aventais, e usado a pele de animais, ao invés de folhas. A verdade é que cada acontecimento, por mais simples que seja, passou exigir do homem uma atitude; ou ele acerta ou erra, como aconteceu com Adão e Eva.

Tudo isto, eu creio, é apenas uma forma de Deus nos ajudar e mostrar a necessidade que temos de acatar o seu conselho, pois que, sendo Ele o arquiteto do universo, pode visualizar o que nós não vamos conseguir sem a sua ajuda. Acaso, não faz o homem parte do projeto de Deus? Se tivermos consciência de que estamos sendo disputados, de um lado por Deus, que deseja a nossa salvação, por outro, pelo Diabo, nosso adversário, que quer a nossa ruína, tenho por certo que o fato de estarmos bem informados a respeito da verdade irá nos favorecer bastante. Aliás, a falta de conhecimento de Deus leva o povo à perdição, como o Senhor disse através do profeta Oséias: “O meu povo está sendo destruído porque lhe falta o conhecimento” (Oséias 4:6).

Como nós já vimos anteriormente, com o advento do mundo atual, do Reino que não é de Deus, a todo momento surge uma questão nova para ser resolvida; e o desconhecimento de Deus nos arrasta à prática da nossa própria justiça. E esta, considerada por Deus como um trapo de imundície, piora ainda mais a nossa situação: “... mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças, como trapo de imundície; e todos nós caímos como a folha, e as nossas culpas, como um vento nos arrebatam.” (Isaías 64:6). Só como exemplo, cito a ciência que trata da produção, distribuição e consumo de bens materiais, a economia. Do ponto de vista de Deus, basta apenas o necessário para nossa alimentação e vestuário. “Mas os que querem se tornar ricos caem em tentação, e em laço, e em muitas concupiscências loucas e nocivas, as quais submergem o homem na ruína e na perdição”(I Timóteo 6:9).

Assim é o que Deus pensa, e não o mundo. O mundo consegue enganar e dizer que não é esta a vontade de Deus. Em conseqüência, tudo o que se produz ainda é pouco para o consumo exagerado e desordenado da humanidade. Esta produção gananciosa e maldosa, com suas ofertas enganosas perturba a sociedade que não percebe ser escrava de um sistema econômico maligno e diabólico. Que mais dizer para mostrar a diferença entre a luz e as trevas; entre o Reino de Deus e o Reino do Mundo? Assim como o dia está para a noite, é a diferença entre a opinião de Deus e a nossa: “Por isso vos digo: Não estejais ansiosos quanto à vossa vida pelo que haveis de comer, ou pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que o vestuário?” (Mateus 6:25). É certo que não acatamos o seu conselho!

Há algum tempo, com muito pouco se vivia. Parece até que o dinheiro não era tão necessário assim. Apenas algumas cidades possuíam estabelecimentos bancários. Hoje o corre-corre por dinheiro tornou-se uma loucura e a justificativa é de que quem assim não proceder também não consegue viver. É verdade! Realmente não se vive mais com pouco dinheiro. O que aconteceu? Para mim só existe uma explicação: simplesmente não acreditamos no que Jesus Cristo disse e mais uma vez estamos sendo enganados pela serpente. E agora? Sob o rótulo do prazer e da satisfação de viver, somos envolvidos em tantos problemas que a solução deles só será possível com a intervenção divina. A nossa capacidade de discernir entre o bem e o mal não está sendo suficiente para impedir que os valores se invertam e a moral se degenere.

Sem avaliar os prejuízos e as conseqüências decorrentes, tudo tem sido feito para que a mulher deixe a sua função doméstica e vá exercer uma atividade fora do lar. Não se sabe, porém, quem irá substituí-la na criação dos filhos e na condução da sua casa. Isto sem dizer do risco que corre o seu casamento. Esta providência, com certeza, não partiu do Reino de Deus e sim, trata-se de mais uma iniciativa encontrada pelo homem para a solução de mais uma de suas questões (a financeira), o que, na realidade, contrasta com a opinião de Deus: “...ensinem as mulheres novas a amarem os seus maridos e filhos, a serem moderadas, castas, operosas, donas de casa, bondosas, submissas a seus maridos, para que a palavra de Deus não seja blasfemada” (Tito 2:4-5).
Vejam só que diferença! Vejam só o que, principalmente, a televisão nos traz através de suas mensagens, visivelmente contrárias à doutrina de Cristo! Vejam o alto preço que estamos pagando por não aceitarmos a palavra de Deus! Após tudo o que falamos, vamos à realidade dos dias em que vivemos, e se possível, relacionando-a com os dias de Noé, quando o grande destaque, creio eu, foram a corrupção do homem e a violência. “A terra , porém, estava corrompida diante da face de Deus; e encheu a terra de violência. E viu Deus a terra, e eis que estava corrompida; porque toda carne havia corrompido o seu caminho sobre a terra. Então disse Deus a Noé: o fim de toda carne é vindo perante minha face; porque a terra está cheia de violência...” (Gênesis 6:11-13).

Isto nos leva a crer, principalmente, que a corrupção do homem e a violência são sinais que não poderão ser desprezados como prenúncio da volta de Cristo e o conseqüente aparecimento do Reino de Deus. Quando se fala de corrupção, logo nos vem em mente a corrupção política, mas não é só isto. Trata-se de algo que perdeu a sua originalidade: de um leite que se tornou coalhada, por exemplo. Ao que aqui está se referindo é ao sentido mais amplo da palavra, apontando, quero crer, para a perversão da espécie, quando ela atinge o seu pior estado. Não seria exagero admitir que o homem deixou de ser o original, criado por Deus, para se tornar um demônio em potencial. Faz sentido o que afirmamos porque quem se alimentar da árvore da vida, tornar-se-á um com ela (natureza divina). Porém, aquele que se alimentar da árvore do conhecimento do bem e do mal vai, conseqüentemente, também se tornar um com ela (adquirir a sua natureza). Quanto a isto, creio eu, logo não terá mais sentido a manutenção do velho homem sobre a Terra.

No que tange à violência, é apenas uma conseqüência da corrupção do homem. Ela cresce na mesma proporção. Caim matou Abel, foi o primeiro ato de violência. Pelos seus frutos serão conhecidas as árvores boas e más; os filhos do Reino de Deus e os filhos do Reino do Mundo. O Reino estará dentro de cada um de nós. O que fazer, se os filhos de Deus, escolhidos para serem luz para o mundo, estão se tornando cada vez em menor número e, em conseqüência, a luz está diminuindo e as trevas (os cegos) tomam conta? Só espero que, neste aspecto, os nossos dias possam superar os dias de Noé, quando apenas oito pessoas estavam na arca, ou seja, em Cristo, guardando os seus mandamentos.